{"id":21049,"date":"2026-04-27T13:38:57","date_gmt":"2026-04-27T12:38:57","guid":{"rendered":"https:\/\/belzuz.com\/?post_type=publicacion&#038;p=21049"},"modified":"2026-04-28T09:45:30","modified_gmt":"2026-04-28T08:45:30","slug":"supremo-tribunal-distribuidor-responsabilizado","status":"publish","type":"publicacion","link":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/publicacion\/supremo-tribunal-distribuidor-responsabilizado\/","title":{"rendered":"Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal (C\u00edvel), de 25 de fevereiro de 2026. O distribuidor pode ser responsabilizado como produtor se n\u00e3o identificar o fabricante no prazo de tr\u00eas meses"},"content":{"rendered":"<p>Trata-se do Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal (Sec\u00e7\u00e3o C\u00edvel), STS 311\/2026, de 25 de fevereiro de 2026, relator: Fernando Cerd\u00e1 Albero, no recurso de cassa\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o processual n.\u00ba 93532021. \u00c9 decidida a legitimidade passiva do fornecedor\/distribuidor em mat\u00e9ria de responsabilidade por produtos defeituosos quando o fabricante n\u00e3o pode ser identificado e o fornecedor n\u00e3o o comunica \u00e0 parte lesada no prazo de 3 meses (art. 138.2 TRLGDCU; art. 3.3 da Diretiva 85\/374\/CEE). A Sec\u00e7\u00e3o d\u00e1 provimento ao recurso e remete o processo ao Tribunal Provincial para que este profira nova senten\u00e7a partindo do princ\u00edpio de que o fornecedor tem legitimidade passiva.<\/p>\n<p>A senten\u00e7a recorda (e aplica com rigor) uma regra de enorme impacto pr\u00e1tico: se a pessoa lesada n\u00e3o conseguir identificar claramente o produtor de um produto defeituoso, o fornecedor pode ser \u00abassimilado\u00bb ao produtor e responder como tal, salvo se, no prazo de tr\u00eas meses a contar da notifica\u00e7\u00e3o da pessoa lesada, identificar diligentemente o produtor (ou quem lhe forneceu o produto). Em setores com cadeias de abastecimento complexas e grupos multinacionais (dispositivos m\u00e9dicos, farmac\u00eautico, autom\u00f3vel, eletr\u00f3nica, etc.), o risco de acabar por ser demandado como \u00abprodutor\u00bb por n\u00e3o esclarecer atempadamente quem fabrica \u00e9 real. Para as seguradoras, isto afeta a atribui\u00e7\u00e3o do risco (quem \u00e9 o segurado \u00abalvo\u00bb do sinistro), a estrat\u00e9gia de recupera\u00e7\u00e3o e a gest\u00e3o precoce de reclama\u00e7\u00f5es pr\u00e9-contenciosas.<\/p>\n<h2><strong>A controv\u00e9rsia<\/strong><\/h2>\n<p>O lit\u00edgio surge devido aos danos sofridos ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o de uma pr\u00f3tese de anca metal-metal (modelo BHR) comercializada sob a marca Smith &amp; Nephew. O paciente reclama uma indemniza\u00e7\u00e3o e dirige a sua a\u00e7\u00e3o contra a empresa espanhola do grupo (Smith &amp; Nephew S.A.), que considera respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>A empresa demandada sustenta que n\u00e3o \u00e9 a fabricante do produto (seria outra empresa do mesmo grupo), mas sim um mero fornecedor\/distribuidor. Aqui reside o cerne do caso: o art. 138.2 TRLGDCU estabelece que, se o produtor n\u00e3o puder ser identificado, o fornecedor ser\u00e1 considerado como produtor, salvo se, no prazo de tr\u00eas meses, indicar \u00e0 parte lesada a identidade do produtor (ou de quem lhe forneceu o produto). A quest\u00e3o \u00e9, portanto, muito concreta: o paciente poderia identificar \u00abperfeitamente\u00bb o fabricante por conta pr\u00f3pria ou, pelo contr\u00e1rio, existia uma confus\u00e3o razo\u00e1vel que obrigava o fornecedor a esclarec\u00ea-la atempadamente?<\/p>\n<h2><strong>Factos relevantes e percurso do processo<\/strong><\/h2>\n<p>De acordo com a exposi\u00e7\u00e3o dos factos provados, foi colocado um implante em 2009; ap\u00f3s revis\u00f5es e an\u00e1lises que revelaram n\u00edveis alterados de metais, em 2014 foi prescrita a sua remo\u00e7\u00e3o, seguindo recomenda\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas; em 2015, foi realizada a substitui\u00e7\u00e3o prot\u00e9tica e os n\u00edveis normalizaram-se.<\/p>\n<p>Percurso judicial: (i) o Tribunal de Primeira Inst\u00e2ncia d\u00e1 parcialmente provimento ao pedido e condena o fornecedor espanhol, entre outras raz\u00f5es, por n\u00e3o ter identificado o fabricante no prazo legal; (ii) o Tribunal Provincial revoga e indefere a a\u00e7\u00e3o, entendendo que o fabricante podia ser identificado com a documenta\u00e7\u00e3o apresentada pelo pr\u00f3prio requerente e que, por isso, o fornecedor carecia de legitimidade passiva; (iii) o Supremo Tribunal corrige essa conclus\u00e3o e ordena que seja proferida uma nova senten\u00e7a, partindo do princ\u00edpio de que o fornecedor tem legitimidade passiva, uma vez que n\u00e3o esclareceu a identidade do produtor dentro do prazo.<\/p>\n<h2><strong>A \u00abassimila\u00e7\u00e3o\u00bb do fornecedor ao produtor<\/strong><\/h2>\n<p>O regime de responsabilidade por produtos defeituosos (TRLGDCU) parte de uma ideia simples: quem coloca em circula\u00e7\u00e3o um produto inseguro deve responder pelos danos. A regra geral aponta para o produtor (fabricante, importador na UE ou quem se apresenta como tal com a sua marca). Mas o legislador sabe que, na pr\u00e1tica, o consumidor pode deparar-se com um \u00ablabirinto\u00bb societ\u00e1rio (marcas, filiais, importadores, distribuidores).<\/p>\n<p>Para evitar que essa complexidade deixe a parte lesada sem um r\u00e9u \u00abclaro\u00bb, o art. 138.2 TRLGDCU introduz uma t\u00e9cnica de assimila\u00e7\u00e3o: se o produtor n\u00e3o puder ser identificado, o fornecedor (quem fornece ou distribui no mercado) ser\u00e1 considerado produtor, a menos que, no prazo de tr\u00eas meses, indique \u00e0 parte lesada a identidade do produtor (ou de quem lhe forneceu o produto). O Supremo Tribunal sintetiza os pressupostos da seguinte forma: (1) o produtor n\u00e3o \u00e9 identific\u00e1vel pela parte lesada; (2) existe uma notifica\u00e7\u00e3o ou reclama\u00e7\u00e3o ao fornecedor; e (3) o fornecedor n\u00e3o identifica o produtor dentro do prazo.<\/p>\n<p>Uma nuance fundamental \u00e9 quando come\u00e7a a correr o prazo: embora o TRLGDCU n\u00e3o fixe expressamente o dies a quo, o ac\u00f3rd\u00e3o parte do princ\u00edpio de que deve ser contado a partir do momento em que o fornecedor recebe a notifica\u00e7\u00e3o da parte lesada. E n\u00e3o basta negar \u00abeu n\u00e3o sou o fabricante\u00bb: a Diretiva 85\/374\/CEE (art. 3.3) \u2014interpretada pelo TJUE\u2014 exige que o fornecedor informe, por iniciativa pr\u00f3pria e de forma diligente, quem \u00e9 o produtor ou o seu pr\u00f3prio fornecedor.<\/p>\n<h2><strong>Os fundamentos do Supremo Tribunal<\/strong><\/h2>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong>Viola\u00e7\u00e3o processual: \u00aberro manifesto\u00bb devido a uma conclus\u00e3o il\u00f3gica<\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>O Tribunal Provincial tinha afirmado que o produtor era \u00abperfeitamente identific\u00e1vel\u00bb porque num documento oficial se mencionava uma empresa concreta do grupo como fabricante. O Supremo, no entanto, rev\u00ea o pr\u00f3prio racioc\u00ednio do Tribunal Provincial e observa uma contradi\u00e7\u00e3o evidente: na documenta\u00e7\u00e3o analisada aparecem pelo menos tr\u00eas poss\u00edveis \u00abprodutores\u00bb (uma sociedade espanhola com sede em Barcelona; uma PLC brit\u00e2nica com sede em Londres; e uma Ltd brit\u00e2nica com denomina\u00e7\u00e3o distinta). Nesse cen\u00e1rio, concluir que o fabricante era inequ\u00edvoco resulta, para o Supremo, il\u00f3gico e irrazo\u00e1vel, o que se enquadra na doutrina constitucional sobre decis\u00f5es afetadas por \u00aberro manifesto\u00bb e, portanto, numa viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 tutela judicial efetiva (art. 24.\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o Espanhola).<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong>Recurso de cassa\u00e7\u00e3o: aplica\u00e7\u00e3o estrita do art. 138.2 TRLGDCU e da doutrina anterior<\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Em recurso de cassa\u00e7\u00e3o, o Supremo Tribunal insere o caso numa linha j\u00e1 conhecida em lit\u00edgios relativos a pr\u00f3teses: quando existe uma confus\u00e3o razo\u00e1vel quanto \u00e0 identidade do fabricante em grupos com v\u00e1rias sociedades, o sistema oferece uma solu\u00e7\u00e3o: ou o fornecedor identifica o fabricante atempadamente, ou pode ser responsabilizado como se fosse o pr\u00f3prio fabricante. A senten\u00e7a remete expressamente para a sua doutrina (STS 34\/2020 e STS 448\/2020, Plen\u00e1rio) e para o TJUE (2\/12\/2009, processo C 358\/08), que exige ao fornecedor algo mais do que uma nega\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica: deve comunicar de forma diligente a identidade do produtor ou do seu pr\u00f3prio fornecedor.<\/p>\n<p>Aplicando essa regra, o Supremo destaca que o paciente apresentou reclama\u00e7\u00f5es extrajudiciais e que o fornecedor teve \u00abrepetidas ocasi\u00f5es\u00bb para esclarecer: \u00abn\u00e3o sou o fabricante\u00bb e, sobretudo, quem o \u00e9. Em vez disso, as suas respostas mantiveram a ambiguidade (por exemplo, falava-se de \u00abcomponentes da Smith &amp; Nephew\u00bb e solicitava-se documenta\u00e7\u00e3o para \u00abavaliar\u00bb a reclama\u00e7\u00e3o) sem identificar o produtor dentro do prazo legal. A identifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorre, segundo consta, na contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 peti\u00e7\u00e3o inicial (setembro de 2016), ou seja, tarde demais para beneficiar da exonera\u00e7\u00e3o prevista no art. 138.2 TRLGDCU. Consequ\u00eancia: a Smith &amp; Nephew S.A. tem legitimidade passiva no regime de produtos defeituosos.<\/p>\n<p>Importante: o Supremo Tribunal n\u00e3o fixa a indemniza\u00e7\u00e3o nem declara definitivamente a responsabilidade civil da demandada. O que faz \u00e9 \u00ablimpar\u00bb o processo de um obst\u00e1culo pr\u00e9vio (a falta de legitimidade passiva apreciada pelo Tribunal de Primeira Inst\u00e2ncia) e remete o processo para que seja proferida uma nova senten\u00e7a que entre no m\u00e9rito, partindo do princ\u00edpio de que o fornecedor tem legitimidade.<\/p>\n<h2><strong>Por que raz\u00e3o este ac\u00f3rd\u00e3o \u00e9 especialmente interessante para as seguradoras<\/strong><\/h2>\n<p>Do ponto de vista das seguradoras, a senten\u00e7a tem valor porque transforma um pormenor meramente processual (quem tem legitimidade passiva) numa alavanca que pode transferir o risco do fabricante para o distribuidor e, com isso, alterar o panorama da cobertura e da recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li>O \u00abrisco segurado\u00bb pode deslocar-se para o elo errado da cadeia. Um distribuidor com ap\u00f3lice de RC de explora\u00e7\u00e3o\/RC de produto pode acabar por responder \u00abcomo produtor\u00bb se n\u00e3o gerir bem a identifica\u00e7\u00e3o. Isto aumenta a exposi\u00e7\u00e3o nas contas de distribui\u00e7\u00e3o\/importa\u00e7\u00e3o, especialmente em setores regulados (sa\u00fade, farmac\u00eautico) e em grupos multinacionais.<\/li>\n<li>O sinistro \u00e9 decidido antes do processo judicial. O ponto cr\u00edtico n\u00e3o \u00e9 apenas a a\u00e7\u00e3o judicial, mas a reclama\u00e7\u00e3o extrajudicial: a partir desse momento, o prazo de 3 meses come\u00e7a a contar. Para as seguradoras, isto refor\u00e7a a import\u00e2ncia da notifica\u00e7\u00e3o precoce e dos protocolos de resposta a reclama\u00e7\u00f5es de consumidores\/pacientes.<\/li>\n<li>Gest\u00e3o documental e rastreabilidade. A senten\u00e7a recompensa a dilig\u00eancia: dispor de rastreabilidade (lotes, UDI, guias de remessa, contratos de fornecimento) e de um procedimento que permita identificar rapidamente o produtor\/importador reduz a probabilidade de \u00abassimila\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/li>\n<li>Impacto nas recupera\u00e7\u00f5es e co-seguros. Se o fornecedor ficar como principal requerido, a recupera\u00e7\u00e3o contra o verdadeiro fabricante (muitas vezes estrangeiro) pode complicar-se. \u00c9 aconselh\u00e1vel antecipar estrat\u00e9gias: escolha da jurisdi\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o entre seguradoras do grupo e mecanismos contratuais de indemniza\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Relev\u00e2ncia para a reda\u00e7\u00e3o. Nas ap\u00f3lices de RC de produto, conv\u00e9m rever as defini\u00e7\u00f5es de \u00abproduto\u00bb, \u00absegurado\u00bb, \u00abfornecedor\/importador\u00bb e as condi\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o. Uma resposta tardia ou amb\u00edgua a um reclamante pode tornar-se o facto gerador da legitimidade passiva.<\/li>\n<\/ul>\n<h2><strong>Conclus\u00e3o <\/strong><\/h2>\n<p>Este ac\u00f3rd\u00e3o real\u00e7a a import\u00e2ncia de se fazer um mapeamento adequado dos respons\u00e1veis num sinistro.<\/p>\n<p>No <a href=\"https:\/\/belzuz.com\/pt\/areas-de-practica\/derecho-del-seguro\/abogados-seguros-madrid-espana\/\">Departamento de Seguros<\/a> da <a href=\"https:\/\/belzuz.com\/pt\/\">Belzuz Abogados, S.L.P.<\/a>, enquanto especialistas em Responsabilidade Civil Sanit\u00e1ria e <a href=\"https:\/\/belzuz.com\/pt\/areas-de-practica\/derecho-del-seguro\/abogados-seguros-madrid-espana\/\">Direito dos Seguros<\/a>, consideramos que este ac\u00f3rd\u00e3o \u00e9 de especial relev\u00e2ncia para advogados, seguradoras, profissionais de sa\u00fade e gestores hospitalares.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":18938,"template":"","categories":[],"area-de-practica":[252],"publicaciones":[516],"idioma-publicacion":[72],"areas-practica-publicacciones":[],"class_list":["post-21049","publicacion","type-publicacion","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","area-de-practica-seguros","publicaciones-ignacio-montero-pujante","idioma-publicacion-portugues"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/publicacion\/21049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/publicacion"}],"about":[{"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/publicacion"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18938"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21049"},{"taxonomy":"area-de-practica","embeddable":true,"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/area-de-practica?post=21049"},{"taxonomy":"publicaciones","embeddable":true,"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/publicaciones?post=21049"},{"taxonomy":"idioma-publicacion","embeddable":true,"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/idioma-publicacion?post=21049"},{"taxonomy":"areas-practica-publicacciones","embeddable":true,"href":"https:\/\/belzuz.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/areas-practica-publicacciones?post=21049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}