O setor segurador enfrenta atualmente um desafio estrutural particularmente relevante: o fenómeno do loss creep, entendido como o aumento significativo das estimativas de perdas ao longo do tempo após um evento, especialmente em contextos de catástrofes naturais.
Este fenómeno não resulta apenas de erros de avaliação inicial, mas de múltiplos fatores, designadamente a subestimação da exposição, a inflação pós-evento, a complexidade dos sinistros — incluindo perdas indiretas — e o incremento da litigiosidade na interpretação de coberturas.
As consequências são relevantes: maior volatilidade técnica, incerteza na avaliação final dos sinistros, atrasos na liquidação e um aumento da conflitualidade entre as partes. Em síntese, o loss creep compromete um dos pilares do seguro — a previsibilidade.
Neste contexto, os seguros paramétricos assumem particular relevância enquanto modelo alternativo ao seguro indemnizatório tradicional.
A sua lógica assenta no pagamento de uma indemnização previamente definida, com base na verificação de um parâmetro objetivo (trigger), como a intensidade de um fenómeno natural, independentemente da avaliação concreta do dano.
Tal estrutura permite ultrapassar algumas das principais fragilidades associadas ao modelo tradicional: elimina a necessidade de peritagem complexa, reduz o tempo de regularização e diminui significativamente o risco de disputas. Em particular, contribui para mitigar vários dos fatores que alimentam o loss creep, nomeadamente a reavaliação contínua das perdas, a inflação de sinistros e os atrasos no pagamento.
O resultado traduz-se numa maior previsibilidade e numa redução da incerteza temporal, fatores especialmente relevantes em cenários de elevada complexidade ou necessidade de liquidez imediata.
Contudo, os seguros paramétricos não são isentos de limitações. Destaca-se o denominado basis risk, isto é, a possibilidade de existir dano sem pagamento (caso o parâmetro não seja atingido) ou pagamento sem dano efetivo. Acresce que a sua eficácia depende da qualidade dos dados utilizados e da correta modelação dos parâmetros contratados. Assim, mais do que uma substituição do seguro tradicional, os seguros paramétricos devem ser encarados como um instrumento complementar, particularmente adequado a riscos complexos, eventos catastróficos e situações em que a rapidez e a previsibilidade são críticas.
Em conclusão, perante a crescente relevância do loss creep, os seguros paramétricos representam uma evolução significativa no mercado segurador, oferecendo uma resposta mais eficiente a um problema estrutural, ainda que exigindo uma utilização informada e tecnicamente rigorosa.
A Belzuz Advogados, S.L.P. contém uma equipa de advogados com experiência na produção e análise de produtos de seguros que poderão proporcionar assessoria jurídica nesta matéria bem como na análise e gestão de sinistros associados a estes temas.